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A Consciência no Laboratório: Ficção Científica ou Realidade?

A série de ficção científica Altered Carbon (2018) retrata um futuro distante, quando as tecnologias hoje discutidas e imaginadas são de uso totalmente normal, como o mapeamento do cérebro, as ligações neurais entre humanos e a inteligência artificial. É um mundo no qual a morte não existe. Quando um corpo (uma unidade de carbono) entra em colapso, a consciência pode ser transferida para outro corpo, seja orgânico, seja sintético.

Anos antes, James Cameron, em seu filme Avatar (2009) mostrava o ano de 2154, em uma lua próxima a Alfa Centauri, Pandora. Para facilitar a conexão entre seres humanos e os nativos do lugar, os cientistas criaram avatares. A consciência de um ser humano podia ser transferida para o corpo de seu avatar, podendo viver sob as mesmas circunstâncias dos habitantes de Pandora.

Nesses filmes, a consciência é digitalizada e faz-se seu upload para um computador. Depois, é só fazer o download para um outro corpo. Isso seria possível?

Para Susan Shneider não. A professora do Departamento de Filosofia e Programa de Ciência Cognitiva da Universidade de Connecticut afirma que é impossível, pois, AINDA, não temos conhecimento total sobre o cérebro e a mente consciente ainda é um campo de estudo com poucas certezas.

Para o Pesquisador do Instituto de Humanidade do Futuro da Universidade de Oxford, Andres Sandberg, existe um problema técnico: a mente consciente emerge daquilo que somos e da nossa atividade cerebral. Existe uma infinidade de informações no cérebro. Até mesmo no tecido que o recobre. E no que que se refere ao mapeamento do cérebro, há muito a fazer. Até onde sabemos, a consciência é uma percepção, fruto de estímulos advindos dos nossos sentidos, e não um ponto no cérebro.

É o que sabemos até agora. Porque tem gente querendo colocar a consciência no laboratório. Há cientistas apostando na localização cerebral da consciência. Uma aposta que está custando 20 milhões de dólares e foi lançada este ano na conferência anual da Society for Neuroscience, em Chicago, diante de mais de 20.000 neurocientistas.

Mais de 500 voluntários terão sua atividade cerebral examinada enquanto realizam uma série de tarefas projetadas e destinadas a descobrir a origem física do pensamento consciente. E um jornal importante se comprometeu a publicar os relatórios dos experimentos, independentemente do resultado.

Uns aplaudem o projeto, outros questionam se tudo não passa apenas de um golpe publicitário, uma perda de tempo e de milhões dólares.

Há nomes importantes da neurociência envolvidos nesse projeto, como Christof Koch, chefe do Instituto Allen de Pesquisa Cerebral, em Seattle, Washington.

O projeto é ambicioso e pretende ser a solução para um dos maiores mistérios do cérebro: entender a consciência e encontrar sua origem.

Mas, o que é, exatamente, a consciência? É possível medir, de forma confiável, o nível de consciência dos animais ou de uma pessoa que desperta de uma anestesia ou mesmo de um feto ainda no útero materno? Embora os neurocientistas possam medir o crepitar da atividade elétrica entre os neurônios e suas redes, ninguém entende como a consciência emerge, porque o senso de consciência não pode ser reduzido a pulsos elétricos neuronais. E há um dado mais notável: podemos criar uma consciência sobre algo a partir da motivação.

O comportamento consciente surge quando podemos integrar e separar informações de várias fontes de entrada como os olhos, os ouvidos, a boca, ou as diferentes sensações. Ou seja, a consciência é fruto de experiências sentidas pelo nosso corpo ao longo da nossa vida, como afirmou Sanberg.

Até onde sabemos, a consciência surge da interconexão intrínseca e mensurável das redes cerebrais. Sob uma arquitetura correta e as características conectivas, a consciência emerge. Quando os neurônios se conectam da maneira “certa”, sob as circunstâncias “certas”, a consciência surge naturalmente para criar a sensação da experiência.

O projeto espera testar várias das principais teorias da consciência com uma metodologia colaborativa. É colaborativa e audaciosa, pois há grupos com teorias contraditórias financiando a pesquisa. Uma delas é a Teoria do Espaço de Trabalho Global (GWT), defendida pelo Dr. Stanislas Dehaene, do Collège de France, em Paris. Uma outra é a Teoria da Informação Integrada (IIT), proposta pelo Dr. Giulio Tononi, da Universidade de Wisconsin.

O GWT acredita numa visão quase algorítmica, onde a consciência atua como uma espécie de chicote motivacional para conduzir ações. Existe a crença que o principal ponto a ser investigado esteja na frente do cérebro, ou no córtex pré-frontal, que atua como uma unidade central de processamento em um computador. É algorítmico, baseado em entrada e saída e, como todos os computadores, potencialmente “hackeável”.

O IIT, por outro lado, adota uma visão mais globalista.  Diferentemente do GWT, que acredita que o cérebro age para criar a consciência, o IIT acredita na percepção da experiência – mesmo que seja apenas uma experiência do eu e não algo externo e que tudo acontece na parte de trás do cérebro.

Para testar teorias e ideias, seis laboratórios de diferentes partes do mundo farão experimentos com mais de 500 pessoas, usando três tipos diferentes de registros cerebrais, sendo um deles a ressonância magnética funcional para detectar a atividade metabólica do cérebro.

Por enquanto é esperar os testes. E, talvez, saber o quão longe (ou perto) estaremos do futuro imaginado pela ficção científica. Será possível a vida eterna pela transferência da consciência de um corpo para outro? Será mesmo possível digitalizar nossa consciência?

Ah…, é bom saber que toda ficção científica parte de, pelo menos, um dado da realidade.

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