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Uma Lição de Gratidão

Imagine uma mesa de jantar bem arrumada e sobre ela um peru recheado com avelãs, linguiça e grãos, servido com batata, cenoura e a estrela da festa: a abóbora. Vamos encontrar, também, purê de batata-doce com manteiga e canela, coberto com marshmallows e mais a sobremesa que são duas delícias: tortas de abóbora e de nozes pecã.

Quem assiste a seriados americanos já viu uma mesa dessas várias vezes. Uma das celebrações mais importantes no calendário dos Estados Unidos, Canadá e Caribe é o Thanksgiving (dia de Ação de Graças), comemorado na 4ª quinta-feira de novembro. O Thanksgiving dinner (jantar de Ação de Graças) é o centro da comemoração, quando familiares e amigos viajam longas distâncias para se juntarem e demonstrar carinho uns pelos outros e gratidão a Deus pelas bênçãos recebidas durante o último ano. É um dos feriados mais importantes dos Estados Unidos e Canadá, mais até que o Natal.

Historicamente, o primeiro dia de Ação de Graças foi celebrado nos Estados Unidos em Plymouth, Massachusetts, por peregrinos fundadores da vila. Depois das colheitas terem sido gravemente prejudicadas pelo inverno rigoroso, em 1620, os colonos tiveram uma boa colheita de milho no verão seguinte, em 1621.

Para marcar e celebrar a ocasião, depois de sucessivos anos complicados para a agricultura, o governador da vila resolveu organizar uma festa no outono de 1621. Nessa festa, participaram índios e colonos diante de uma mesa bem farta. A partir daí, na Nova Inglaterra, em cada outono era organizada uma festa de gratidão a Deus, pelas boas colheitas, com destaque para a abóbora, que é de fato, o sabor do outono nos EUA.

Anos mais tarde, em 1863, o Presidente Abraham Lincoln decretou que a 4ª quinta-feira de novembro seria feriado em todo o país, para comemorar o Thanksgiving, agradecendo também pelo que se tem de bom na vida.

No Brasil, esta não é uma data comemorativa comum no calendário nacional. Porém, em 1966, a lei 5.110 estabeleceu que as comemorações de Ação de Graças no país, também, se dariam na 4ª quinta-feira do mês de novembro, por causa das muitas famílias de origem americana e algumas igrejas cristãs protestantes, como a Igreja Luterana, a Igreja Presbiteriana, a Igreja Batista, a Igreja Metodista e a Igreja do Nazareno, além, claro, dos cursos de inglês espalhados no país.

Apesar do brasileiro não comemorar a data, devíamos parar para refletir: pelo que temos a agradecer? Porque, se existe um caminho para a felicidade, ele certamente passa pela gratidão.

Mas, o que é gratidão? A palavra gratidão apareceu na língua portuguesa pela primeira vez em 1543. A palavra veio do latim e tinha três aspectos:

  • reconhecer intelectualmente um benefício recebido,
  • louvar e dar graças,
  • retribuir de acordo com as suas possibilidades e as circunstâncias mais oportunas de tempo e lugar.

Na língua inglesa e alemã, por exemplo, to thank e zu danken, ambos têm a raiz da palavra no verbo pensar. E ambos, com o sentido de agradecer, remetem ao primeiro aspecto, ou seja, para o reconhecimento intelectual, cognitivo, expresso pelo verbo de origem. O reconhecimento intelectual justifica que está agradecido aquele que pensa no favor que recebeu. Só é agradecido quem pensa, pondera e considera o que recebeu de um benfeitor.

No italiano, espanhol e francês, graziegracias e merci respectivamente, remetem ao segundo aspecto, o louvor pela graça recebida no favor, no amor de alguém que traz um benefício. Graça também indica um dom, gratuitamente ofertado; a retribuição, “fazer graças”. Igualmente o louvor, o bem recebido procede de outro.

Em árabe, o agradecimento, shukran, situa-se também no segundo aspecto da gratidão: o do louvor do benfeitor e do benefício recebido.

Já, a língua portuguesa deu importância ao vínculo, à obrigação, ao dever de retribuir. Apesar da palavra “gratidão” existir na nossa língua desde 1543, com o tempo passamos a dizer obrigado (a), que quer dizer isso mesmo: fico obrigado perante o outro, fico vinculado ao outro, estou comprometido a, pelo menos, um diálogo. O termo surgiu nos anos 1700.

Portanto, para nós, falantes da língua portuguesa, gratidão é o sentimento vindo do reconhecimento do benefício prestado. E a forma de expressar esse reconhecimento se dá pela palavra obrigado (a). Ela carrega o “eu sei exatamente o que fez por mim e estou comprometido com você”. Demais, não é?

A etimologia, no fundo, revela mais que o significado de um termo. Revela o inconsciente coletivo de um povo.

Por isso, ser ingrato é tão ruim. É quase um xingamento. Nunca estar satisfeito com o que tem ou com o que é.

Na verdade, sempre queremos mais dinheiro, melhor trabalho, uma casa melhor, um carro melhor, um corpo mais bonito. Por um lado, não é ruim querer mais, querer melhorar. A insatisfação nos coloca em ação, que gera trabalho, que gera resultados.

O lado ruim é nunca agradecer pelas conquistas. Seja a Deus, seja à vida, seja às pessoas que cruzaram o caminho. A gratidão nos torna mais leves, mais felizes e de bem com a vida.

É possível passar a ter o hábito de agradecer, começando, primeiro, a parar de reclamar. Ao valorizar o que possuímos, enxergaremos o outro. Por que reclamar do carro, se há quem precise do transporte público diariamente? Por que reclamar da comida, se há quem sinta fome neste exato momento e não tem nada para saciá-la? Por que reclamar da casa, se há tantos na rua, dormindo ao relento, expostos a qualquer tipo de insegurança?

Antigamente, as pessoas em geral, costumavam fazer uma oração agradecendo a Deus à mesa, diante da refeição. Um hábito que se perdeu com o tempo para a grande maioria das pessoas.

Agradecer é dar valor. É perceber o quanto a sua vida é abençoada por ter muitas coisas que outros não têm oportunidade de ter. Agradecer aos sentidos que possui e que levam informações ao cérebro, para assim podermos aprender todos os dias.

E, também agradecer pelo que somos e pela possibilidade de podermos nos tornar o que quisermos. Agradecer pelo nosso corpo, porque é através dele que podemos nos expressar e conquistar nosso espaço.

Sei que é difícil agradecer quando estamos atravessando uma tempestade. Mas, é o momento certo para testarmos nosso limite e de, ao final, vermos o quanto conseguimos crescer, evoluir. Enxergar beleza na tribulação é uma virtude que pode ser alcançada e trabalhada. Isso é desenvolvimento pessoal.

Eu aprendi a agradecer todas as noites pelo dia vivido com o meu sobrinho. Sempre rezávamos com ele. Quando aprendeu a falar, ensinamos algumas orações. E aí, veio uma lição enorme. Ele rezava do jeito dele, com as palavras dele. Agradecia pelo dia, agradecia o que tinha acontecido com os outros e terminava pedindo que o mal se transformasse em bem.

Ele, tão pequeno, enxergava grande. Agradeço por ele fazer parte da minha vida, porque me ensina algo todos os dias.

Até aqui, tudo bem, parece algo muito espiritual. Mas, e o que a ciência pode dizer? Pode dizer muito. Robert Emmons é um cientista que estuda os efeitos da gratidão na vida das pessoas. Após estudos com mais de 1000 pessoas entre 8 e 80 anos, encontrou o que as pessoas que, consistentemente praticam gratidão, têm como benefícios:

Físicos

  • Sistemas imunológicos mais fortes
  • Menor incômodo com dores
  • Pressão sanguínea mais baixa
  • Gostam de praticar mais exercício e têm maior cuidado com a saúde
  • Dormem mais e sentem-se com mais energia ao caminhar

Psicológicos

  • Têm um maior nível de emoções positivas
  • Sentem-se mais alertas, com mais vivacidade
  • Têm mais prazer e alegria
  • São mais otimistas e felizes
  • Conseguem bloquear sentimentos negativos, como inveja e mágoa

Sociais

  • Sentem mais generosidade e compaixão, tornando-se prestativos
  • Sentem maior capacidade de perdoar
  • São mais extrovertidos
  • Sentem-se menos sós

Há outros benefícios já comprovados pelos estudos de Emmons. O poder da gratidão tem diminuído casos de depressão, tem reduzido a necessidade que algumas pessoas têm de ter controle sobre as coisas e a vontade de que tudo têm que estar perfeito, na esperança que as outras pessoas ajam da forma como se espera. Além disso, com a mudança de perspectiva da realidade, há uma melhor aceitação daquilo que não pode ser mudado.

Durante o estudo, Emmons pediu que seus pacientes mantivessem um diário de gratidão. Nele, deveriam escrever sobre as coisas pelas quais se sentiam agradecidos diariamente. Na hora de registrar os motivos de gratidão, todos tinham que ser bem específicos: “Eu agradeço pela oportunidade de ter me inscrito no curso de …., porque aprendi….”

Mesmo que o dia tivesse sido péssimo, alguma coisa de bom deveria ser encontrada para agradecer. “Eu agradeço por ter chegado em casa em segurança e, agora, poder descansar meu corpo e minha mente”.

Mas, por que escrever? Qual é o sentido da escrita? O princípio básico da escrita é a expressão dos pensamentos, dos sentimentos, do conhecimento, de uma reflexão… A escrita é como o escape daquilo que está dentro de nós.

Escrever é um ato de conquista também! O ato de escrever é parte importante da realização de nossos sonhos!

Sendo assim, que tal criar o seu diário de gratidão? Pode ser na sua agenda mesmo. Anotou o que tem que ser feito. No final do dia, agradeça. Pode usar uma agenda de papel ou um aplicativo no celular.

É muito importante, também, lembrar das pessoas que fazem algo por nós, mesmo sem saber. Dizer obrigado, obrigada fortalece os relacionamentos. Há empresas norte-americanas que têm os thank you cards (cartões de agradecimento). São pequenos cartões distribuídos pelos setores da empresa e facilmente disponíveis para quem quiser utilizá-los. A ideia básica é que quando alguém ajudar você no seu trabalho você pegue um dos cartões e escreva uma nota de agradecimento. Excelente exercício de gratidão, não é?

O exercício da gratidão contribuirá para uma vida mais feliz, ajudará nossos olhos a focar no lado bom e positivo de todas as coisas e de todas as pessoas, reduzirá o sentimento de insatisfação, nos tornará emocionalmente mais fortes, nos ajudará a combater a negatividade, pois estaremos gerando sempre energia positiva.

E você? Pelo que tem a agradecer hoje?

COMENTÁRIOS
  • Marco Aurélio
    25 de novembro de 2018

    Adriana, sabemos o quanto VOCÊ fez pelo nosso filho.
    Gratidão.

    responder
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