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Quem Fala, diz Mesmo o que Pensa?

Há quem fale pelos cotovelos, há quem entenda tudo ao pé da letra e há quem tire de letra; há que quem adore bater papo, há até quem ponha a boca no trombone, sem misturar alhos com bugalhos, em vez de fazer boca de siri; e há quem fale sem dizer absolutamente nada.

A língua é uma produção social, dentro de um tempo e espaço na vida das pessoas, expressando, também, condições socioeconômicas.

Ouvir entendendo e falar fazendo-se entender são habilidades ligadas ao desenvolvimento mental e são tão naturais que as pessoas não se dão conta disso.

No Brasil, poucos têm condições e são educados para usufruir de literatura, poesia, cinema, teatro. Segundo pesquisas, esses poucos são apenas 8% da população. Educação é um problema social e não somente pedagógico. Professores de português ensinam análise sintática para alunos que não acertam o sujeito da oração. Como os professores querem que seus alunos acertem o sujeito se estes mesmos alunos não sabem ser o sujeito de suas próprias vidas?

O que é ensinar português? Qual é o sentido de ensinar a língua materna a pessoas que a dominam e a utilizam no dia a dia? É ensinar a língua escrita? É ensinar a norma culta? É ensinar os diferentes registros linguísticos? É tudo isso ou não é nada disso?

Ensinar português é ensinar que há um registro que o levará a acender social e economicamente: o padrão culto. É, também, ensinar a escrever, porque para cada assunto, para cada motivo, para cada interlocutor, requer-se um tipo de composição de um texto.

A escola recebe crianças que falam a língua materna e trabalha com ela através da leitura e da produção de textos para levar os alunos a assumirem sua função como sujeito do discurso, seja como falante, seja como escritor. Ser sujeito do discurso é ter papel substantivo em um determinado contexto, ou seja, tornando o ambiente favorável para que se disponibilize para isso.

Com certeza, esta não é uma tarefa fácil, porque linguagem não é uma simples emissão de sons, nem um sistema convencional, nem a tradução imperfeita do pensamento. Ela é criação de sentido, é fruto de um árduo trabalho mental.

O aluno precisa ser sujeito do dizer e do pensar, ser agente para transformar sua realidade, para fugir à alienação, para formar sua capacidade linguística plural e dominar qualquer regra gramatical, qualquer rótulo.

O aluno não precisa ser um técnico da língua, mas, sim, um pesquisador constante para saber que dominar o uso padrão está ligado a valores sociais internalizados pelos seus interlocutores, sabendo onde buscar informações para sanar suas dúvidas.

O baixo nível de utilização plena da língua pelos brasileiros é comprovado pelas redações nos concursos, pelo vocabulário cada vez mais restrito, pelo nível de leitura (a tiragem de nossos jornais e revistas é baixa) e pela inércia na administração das escolas públicas. Estudar uma língua é detectar vínculos criados entre os interlocutores, assim como as variações linguísticas sociais e regionais.

A sala de aula é como um laboratório que serve para criar oportunidades para os alunos dominarem a forma padrão. Pois, uma coisa é saber uma língua; outra é dominar seu uso em situações concretas de interação, entendendo e produzindo enunciados.  Assim como não se trata apenas de ensinar os gêneros e suas manifestações concretas, como contos, crônicas, cartas, mas de trazê-los à consciência dos alunos, verificando se o gênero escolhido para produzir o texto foi o mais adequado.

As línguas ligam-se aos seus usuários e todas variam, sejam entre jovens e velhos, homens e mulheres, pessoas mais ou menos influentes. Elas variam em qualquer circunstância. As línguas evoluem por causa da variação. A língua culta é uma das variedades da língua utilizada pelos cidadãos mais influentes da região mais poderosa do país, sendo escolhida como expressão do poder.

As variedades não são erros, mas diferenças. Os erros estão na inadequação da linguagem. O erro acontece em relação à avaliação do valor social das expressões. Erros existem e não podemos mascará-los. Não mostrar o erro para um aluno é privá-lo de condições para evoluir e de refinar aquilo que já sabe.

A leitura nos ajuda a vivenciar diferentes experiências e assimilá-las ao nosso conhecimento de mundo. Ler não é decifrar o sentido de um texto, mas atribuir-lhe significados e conseguir relacioná-lo a outros textos, reconhecendo o objetivo que o autor pretendia. O leitor reconstrói um texto na sua leitura. Na leitura, o diálogo do aluno é com o texto e não com o professor, que é um mediador desse diálogo.

E onde entra a produção de textos? Em todas as circunstâncias de fala ou da escrita, há um interlocutor (real ou imaginário, individual ou coletivo, mais ou menos próximo). É a imagem do interlocutor que comandará a escolha do vocabulário. O professor de redação (sua imagem e vocabulário) norteará a escrita da redação do aluno na vida acadêmica. É para ele que os alunos escrevem.

Escrever nunca foi e nunca será a mesma coisa que falar. A escrita é um resultado histórico. E é importante o aluno ter consciência disso.

A construção de uma redação tem sido uma disputa constante entre a competência linguística do estudante e a imagem da língua escrita a partir da imagem do interlocutor (professor). E diferente de qualquer outra prova, é na redação que está em jogo a própria capacidade de redigir. Capacidade essa que é construída ao longo de anos.

Portanto, a finalidade do ensino de língua materna é garantir a aquisição da capacidade de desenvolver quatro habilidades: falar, escutar, ler, e escrever, bem como tomar o texto como unidade básica de trabalho, considerando a diversidade de textos que circulam socialmente. É ajudar o aluno a construir seu pensamento de forma lógica, coesa e coerente para, ao se expressar, se fazer entendido. E quando ouvir, entender o que foi dito.

Ensinar português é ensinar a escrever com a finalidade de produzir um texto que responda quem somos nós e como dizer quem somos nós?

É a construção do entendimento a respeito de nossa realidade interior e de nossa realidade social. Aí está a beleza do ensino da língua materna: palavras que vão formando frases que constroem um texto que expressam nossos mais profundos pensamentos. E desenvolver a escrita na busca pela qualidade textual é escrever literatura brasileira, ou seja, é a produção de conhecimento de nossa realidade interior, de nossa vida social e da língua em que vamos expressar esse conhecimento.

É importante que o professor valorize, primeiramente, a gramática que o aluno já possui, ou seja, a gramática internalizada, para que o aluno possa associá-la com a normativa, pois ambas fazem parte de nossas vidas. Isso porque, primeiro, aprendemos a ler o mundo e depois aprendemos a palavra escrita, onde lhe atribuímos valor. As crianças quando chegam à escola já sabem sua língua materna, assim como já sabem atribuir valor e significado às coisas do mundo a partir de suas experiências pessoais.

O professor deve mostrar ao aluno, que dependendo do meio social em que se encontra, usará variações linguísticas, mas que será preciso ter um pequeno entendimento da gramática normativa para que ele possa se expressar com coesão e coerência.

Fala e escrita são meios de comunicação e interação, e ambas possuem regras. O ensino da gramática precisa ser contextualizado com a realidade do aluno, para que este interaja e tenha uma boa compreensão, percebendo, assim, que o uso desta faz parte do seu dia-a-dia.

Não só o aluno, mas também, o professor aprende muito com a realidade de sala de aula, já que a escola é o lugar de ensino aprendizagem, lugar de interação. Nesse caso, o papel do professor é instigar seus alunos, provocar avanços, ser mediador do conhecimento, aquele que consegue refletir, buscando sempre a maneira mais prazerosa de ensinar e aprender.

 

 

 

 

 

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